Nosso cérebro racista: preconceito afeta como vemos uns aos outros

Matheus Macedo-Lima
11/05/2016

Preconceitos alteram nossos cérebros de uma maneira mais fundamental do que se pensava. [1]
Preconceito ainda é um dos maiores problemas da sociedade. Seja contra gênero, classe social, cor da pele ou etnia, preconceitos estão no cerne de injustiças sociais, violência e crimes de ódio. Há uma extensa preocupação da ciência em entender como se originam as associações entre características não-relacionadas (por exemplo, cor da pele e classe social) que culminam na formação de estereótipos e preconceitos em indivíduos. Para isso, é importante entender como o cérebro combina e representa essas características. Será que o problema está realmente em como julgamos as pessoas? Ou seria algo mais primitivo, como a maneira em que o nosso cérebro processa imagens de pessoas?

Baseando-se nessas questões, pesquisadores da New York University propuseram estudar como o processamento de rostos no cérebro é influenciado por preconceito [2]. Pesquisas anteriores já haviam mostrado que preconceitos estão inevitavelmente intricados em nossos cérebros (mesmo quando nos identificamos como livres deles). Esse novo estudo traz uma nova perspectiva: o preconceito atinge também a percepção visual no cérebro.

Os cientistas utilizaram uma técnica de monitoramento do movimento do mouse durante uma tarefa no computador. Participantes viam rostos de diferentes gêneros, etnias e emoções e eram instruídos a mover o mais rápido possível o mouse em direção a botões que categorizavam os rostos. Por exemplo, a face de uma mulher negra e com semblante feliz aparecia na tela, e os botões “homem” e “mulher” (ou “feliz” e “agressivo”) apareciam em cantos opostos da tela. O movimento do mouse foi utilizado para inferir preconceitos subjetivos dos participantes, ou seja, o movimento indireto do cursor, o que indica hesitação ou percepção inicial errônea, era interpretado como um julgamento preconceituoso da face. As principais associações comprovam estereótipos já conhecidos na sociedade (estadunidense): homem-negro(a)-agressivo(a) e mulher-asiático(a)-feliz (assim como combinações dois-a-dois destes).

Além desse teste, os mesmos participantes foram colocados em uma máquina de ressonância magnética funcional enquanto viam passivamente os rostos. Essa máquina permite observar a atividade de áreas específicas do cérebro em tempo real. A combinação dos resultados dos dois testes foi surpreendente!

Duas áreas do cérebro eram ativadas quando os participantes viam os rostos que “despertavam” preconceito de acordo com os resultados do teste do mouse: o córtex orbitofrontal e o giro fusiforme. A primeira (não-surpreendentemente) está envolvida no julgamento de faces, ou seja, é uma área de associação entre emoções e objetos (faces), e tomada de decisões. O mais interessante é que a segunda área está envolvida no reconhecimento de faces, o que indica que o cérebro faz uma categorização do tipo de face observado já numa área visual! Em outras palavras, o preconceito parece afetar a resposta em áreas visuais no cérebro.

É importante salientar que o preconceito não é “de nascença”, mas adquirido por transmissão cultural, ou por observação do que é comum no ambiente e aprendizado implícito [3]. O estudo mostra que nossos preconceitos alteram não só nosso julgamento, mas também como nossos cérebros processam visualmente as faces. É tentador pensar em estudos que manipulem a atividade dessas áreas no cérebro (com estimulação magnética transcraniana, por exemplo) para observar se preconceitos podem ser desconstruídos no cérebro…

[1] Credito da imagem: tribal enfexion (Flickr) / Creative commons (CC BY-NC 2.0). URL: https://www.flickr.com/photos/tribalenfexion/3892494301/in/photostream/.

[2] RM Stolier and JB Freeman. Neural pattern similarity reveals the inherent intersection of social categories. Nature Neuroscience 19, 795 (2016).

[3] GW Allport. The nature of prejudice. Reading: Addison-Wesley (1954).

Como citar este artigo: Matheus Macedo-Lima. Nosso cérebro racista: preconceito afeta como vemos uns aos outros Saense. URL: http://www.saense.com.br/2016/05/nosso-cerebro-racista-preconceito-afeta-como-vemos-uns-aos-outros/. Publicado em 11 de maio (2016).

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Matheus Macedo-Lima

Matheus Macedo-Lima

Doutorando em Neuroscience and Behavior na University of Massachusetts Amherst (USA). Escreve sobre Neurociência no Saense.

One thought on “Nosso cérebro racista: preconceito afeta como vemos uns aos outros”

  1. Hoje a Neurociencia abre portas antes acessadas pela filosofia e pela psicologia! Claro que todo comportamento humano é guiado pelo nosso cérebro e paralelamente modifica o cérebro de cada dia!

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